Como proteger os filhos do conflito entre os pais

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Irmãos em contexto familiar associado ao conflito entre os pais

Nem sempre é a separação em si que mais pesa nos filhos. Muitas vezes, aquilo que se torna mais difícil para uma criança ou para um adolescente é continuar a viver no meio da tensão entre os pais. O conflito entre os pais pode entrar no dia a dia de formas muito diferentes: discussões frequentes, críticas ao outro progenitor, mensagens passadas pelos filhos, mudanças constantes de planos, tensão nas transições entre casas ou um ambiente em que a criança sente que tem de estar sempre atenta ao que diz e ao que faz.

Proteger os filhos do conflito entre os pais não significa fingir que está tudo bem ou conseguir uma relação perfeita depois da separação. Significa, antes de mais, tentar impedir que a criança fique exposta a um peso emocional que não lhe pertence. Quando os filhos sentem que têm de escolher lados, medir palavras, esconder o que sentem ou adaptar-se constantemente ao estado emocional dos adultos, a separação torna-se mais difícil de integrar e mais pesada de viver.

Porque é que o conflito entre os pais pesa tanto nos filhos

Para uma criança, os pais continuam a ser figuras centrais de segurança, mesmo quando deixam de estar juntos. Quando a relação entre eles se torna muito tensa, imprevisível ou hostil, essa base de segurança pode ficar abalada. A criança pode não perceber todos os detalhes da situação, mas percebe o ambiente, a mudança de tom, a irritação acumulada, os silêncios carregados ou a sensação de que qualquer pequeno momento pode transformar-se em conflito.

Nos adolescentes, isto também acontece, embora nem sempre de forma visível. Podem parecer mais distantes ou mais duros, mas continuam a ser sensíveis ao clima emocional da família. Quando o conflito entre os pais se prolonga, os filhos podem sentir-se divididos, inseguros ou emocionalmente sobrecarregados, mesmo que tentem não o mostrar.

Nem sempre o conflito é aberto para ter impacto

Muitas pessoas associam conflito parental apenas a discussões intensas ou momentos de grande explosão. Mas o conflito também pode ser mais silencioso e, ainda assim, ter impacto. Pode aparecer em comentários depreciativos, ironias, tensão nas trocas entre casas, recados enviados pela criança, perguntas insistentes sobre o outro progenitor, mudanças que nunca são explicadas com clareza ou uma frieza constante que obriga o filho a perceber sozinho o que se passa.

Uma criança não precisa de assistir a grandes discussões para sentir que está no meio de algo difícil. Basta crescer num ambiente em que sente que tem de estar sempre a ajustar-se, a antecipar reações ou a proteger-se emocionalmente. Muitas vezes, é este peso mais invisível que se instala no dia a dia e vai desgastando a segurança emocional dos filhos.

O que tende a ser mais difícil para os filhos

Uma das experiências mais difíceis para uma criança ou para um adolescente é sentir que tem de escolher um lado. Isto pode acontecer de forma direta, mas também de formas mais subtis. Às vezes surge quando um dos pais fala mal do outro. Outras vezes aparece quando a criança sente que não pode mostrar afeto ou gostar de estar com um deles sem magoar o outro. Noutros casos, acontece quando percebe que há assuntos sobre os quais é melhor não falar, para não criar tensão.

Também pesa muito quando os filhos passam a ocupar lugares que não são os seus. Quando levam recados, quando servem de fonte de informação, quando ficam expostos ao sofrimento emocional dos adultos ou quando sentem que têm de consolar, proteger ou compensar um dos pais. Uma criança pode até parecer madura ou colaborante nestes momentos, mas isso não significa que esteja confortável. Muitas vezes, significa apenas que está a adaptar-se em excesso a uma realidade demasiado pesada para a sua idade.

Como proteger os filhos do conflito entre os pais no dia a dia

Proteger os filhos do conflito entre os pais passa, em primeiro lugar, por ajudá-los a manter o seu lugar de filhos. Isso implica não os envolver em temas do casal, não os usar como mensageiros, não lhes pedir que escolham lados e não os colocar na posição de terem de gerir emoções que pertencem aos adultos.

Também ajuda muito preservar alguma previsibilidade. Quando as rotinas são minimamente claras, quando as mudanças são explicadas com antecedência e quando as crianças ou adolescentes não vivem num estado de incerteza constante, tendem a sentir-se mais seguros. Nem sempre é possível evitar todas as alterações, mas é importante que a criança não sinta que tudo pode mudar a qualquer momento sem explicação.

Outro aspeto importante é a forma como se fala do outro progenitor. Mesmo quando existem mágoas, conflitos ou diferenças profundas, os filhos beneficiam quando não ficam expostos a desqualificações, acusações ou comentários que os deixem internamente divididos. Uma criança não vive o pai e a mãe como duas figuras desligadas de si. Quando um é constantemente atacado pelo outro, isso pode ser vivido com grande confusão e sofrimento.

Coparentalidade não é estar de acordo em tudo

Depois da separação, nem sempre os pais conseguem comunicar facilmente. Por vezes há ressentimento, desgaste, diferenças antigas ou dificuldades que já existiam antes. Proteger os filhos não exige uma coparentalidade perfeita nem uma relação harmoniosa em todos os momentos. Exige, sobretudo, que os adultos consigam distinguir o que pertence ao conflito entre eles daquilo que diz respeito às necessidades dos filhos.

Isso significa tentar tomar decisões parentais com um mínimo de clareza, manter alguma coerência no essencial e evitar transformar os filhos no ponto de encontro do conflito. Em muitas situações, a coparentalidade mais protetora não é a mais próxima ou a mais “bonita” por fora. É simplesmente aquela em que a criança não fica exposta a tensão desnecessária e não é empurrada para papéis que não lhe cabem.

Quando os pais estão muito magoados, proteger os filhos pode exigir ajuda

Há situações em que os adultos sabem, em teoria, o que seria melhor para os filhos, mas não conseguem pô-lo em prática com consistência. Quando há mágoa acumulada, tensão persistente, dificuldade em regular emoções ou um conflito que continua muito ativo, pode tornar-se mais difícil proteger verdadeiramente a criança do peso dessa relação.

Nestes casos, procurar apoio não significa que os pais falharam. Muitas vezes, significa precisamente que perceberam que, sozinhos, já não estão a conseguir separar aquilo que é sofrimento do casal daquilo que os filhos precisam para se sentirem seguros. Às vezes, a mudança mais importante não passa por resolver tudo entre os adultos, mas por criar condições para que a criança deixe de ficar no meio.

Como o acompanhamento psicológico pode ajudar

Quando o conflito entre os pais está a pesar demasiado no ambiente familiar, o acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender melhor o impacto que isso está a ter nos filhos e a pensar formas mais protetoras de gerir esta fase. Em alguns casos, o trabalho centra-se na criança ou no adolescente, ajudando a dar sentido ao que está a viver e a organizar emoções difíceis. Noutros, passa também por apoiar os adultos a repensar a forma como estão a comunicar, a decidir e a gerir a coparentalidade.

Os filhos não precisam que tudo esteja resolvido entre os pais para se sentirem mais protegidos. Precisam, acima de tudo, de não ficar no meio de um conflito que não lhes pertence. Quando isso se torna difícil de garantir no dia a dia, procurar ajuda pode ser um passo importante.

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