
A separação dos pais pode ser vivida de formas muito diferentes por cada criança e por cada adolescente. Em algumas famílias, a adaptação acontece com relativa estabilidade. Noutras, começam a surgir mudanças no comportamento, no humor, no sono, na escola ou na relação com os pais. Nem sempre esses sinais aparecem de forma clara. E nem sempre é fácil perceber se fazem parte de uma adaptação expectável ou se mostram um mal-estar mais profundo.
Uma das dificuldades mais frequentes nesta fase é precisamente esta: muitas crianças não dizem diretamente que estão mal. Em vez disso, mostram-no de outras formas. Podem ficar mais irritáveis, mais dependentes, mais caladas, mais inseguras ou mais difíceis de tranquilizar. Por isso, perceber se a separação está a afetar um filho exige atenção ao dia a dia, à forma como reage às mudanças e àquilo que foi mudando desde que a família se reorganizou.
Nem sempre os sinais aparecem logo
Nem todas as crianças reagem da mesma maneira à separação dos pais. Algumas mostram tristeza, insegurança ou maior necessidade de proximidade logo desde o início. Fazem perguntas, choram mais ou procuram estar mais perto dos pais. Outras parecem aceitar a mudança com relativa facilidade. Mantêm as rotinas, não falam muito sobre o assunto e até parecem mais tranquilas do que seria esperado.
Isto pode significar que a adaptação está a acontecer de forma estável. Mas também pode acontecer que a criança esteja a conter o que sente, a tentar não dar mais preocupações aos adultos ou a não conseguir ainda dar forma ao que está a viver. Nem sempre o impacto da separação aparece de imediato. Às vezes surge semanas ou meses mais tarde, quando a nova realidade se torna mais concreta e certas mudanças deixam de parecer temporárias.
Também é frequente que determinados momentos tornem esse impacto mais visível. As transições entre casas, as férias, os aniversários, os dias em que existe maior tensão entre os pais ou outras alterações na rotina podem tornar o mal-estar mais evidente. Por isso, vale a pena olhar não apenas para o que a criança diz, mas também para quando e em que contexto determinadas reações aparecem.
Sinais mais frequentes nas crianças
Nas crianças, a separação pode ter expressão em áreas muito diferentes. Algumas ficam mais agarradas aos pais e mais inseguras nas separações. Outras tornam-se mais sensíveis às mudanças de rotina, dormem pior, resistem mais à escola ou choram com maior facilidade.
Também podem surgir birras mais intensas, maior irritabilidade, regressões ou queixas físicas sem causa médica evidente, como dores de barriga ou dores de cabeça. Muitas vezes, a criança não consegue dizer claramente o que sente. Aquilo que está a viver aparece no corpo, no comportamento e na relação com os adultos.
Uma criança pode tornar-se mais dependente de um dos pais, reagir mal às mudanças entre casas, precisar de controlar pequenas coisas ou mostrar-se particularmente sensível a despedidas, atrasos ou alterações de planos. Estas reações não significam automaticamente que algo esteja a correr mal, mas podem mostrar que a criança se sente menos segura e está a tentar recuperar algum controlo perante uma realidade que vive como instável.
Também merece atenção a criança que parece demasiado adaptada. Há filhos que se mostram muito contidos, excessivamente compreensivos ou demasiado preocupados em não causar problemas. À superfície, tudo pode parecer calmo. Mas, por dentro, pode estar a existir um esforço grande para lidar com tristeza, tensão ou incerteza.
Sinais mais frequentes na adolescência
Na adolescência, os sinais podem ser menos óbvios. Por isso, é mais fácil confundi-los com aspetos habituais desta fase do desenvolvimento. Ainda assim, há mudanças que merecem atenção.
O adolescente pode ficar mais irritável, mais distante, mais fechado ou mais crítico em relação a um ou a ambos os pais. Pode também mostrar quebra no rendimento escolar, desmotivação, isolamento, conflitos mais intensos em casa ou maior resistência em falar sobre a família.
Nalguns casos, parece desligado, como se nada lhe dissesse respeito. Noutros, assume um papel demasiado adulto. Tenta conter o ambiente familiar, proteger um dos progenitores ou evitar aumentar ainda mais a tensão. Esta aparente maturidade nem sempre significa que esteja bem. Muitas vezes, esconde sobrecarga emocional.
O mal-estar também pode surgir de forma indireta. Às vezes aparece como frieza, oposição, evitamento de conversas ou dificuldade em lidar com a imprevisibilidade da situação. Quando isso acontece, é importante não reduzir tudo a “coisas da adolescência”. Em alguns casos, o que está em causa é a forma como esta mudança está a ser vivida internamente.
Quando a separação pesa mais do que seria esperado
Nem toda a tristeza, irritabilidade ou instabilidade depois da separação significa que algo está a correr mal. Há reações que fazem parte de um processo de adaptação a uma mudança importante. O que costuma merecer mais atenção é a persistência, a intensidade e o impacto dessas mudanças na vida da criança ou do adolescente.
Vale a pena olhar com mais cuidado quando o mal-estar se prolonga, quando interfere com o sono, com a escola, com a relação com os pais, com a autonomia ou com a capacidade de viver o dia a dia com alguma tranquilidade. Também importa prestar atenção quando há isolamento crescente, sofrimento muito intenso nas mudanças de rotina ou sinais de que o filho está a carregar um peso emocional demasiado grande para a sua idade.
Mais do que procurar um sinal isolado, costuma ser útil olhar para o conjunto. Às vezes, o que chama a atenção não é uma reação muito intensa, mas várias pequenas mudanças que começaram a acumular-se: uma criança mais tensa, mais sensível, menos tranquila, mais difícil de acalmar ou menos espontânea do que era habitual.
O que pode ajudar os pais a fazer esta leitura
Em fases de reorganização familiar, nem sempre é fácil perceber com clareza aquilo que se está a passar. Os próprios adultos podem estar emocionalmente mais sobrecarregados, o que torna mais difícil distinguir entre reações transitórias e sinais que merecem um olhar mais atento.
Ajuda observar se houve mudanças consistentes no comportamento, se essas mudanças surgem em contextos específicos, se se mantêm ao longo do tempo e se estão a interferir com áreas importantes da vida da criança ou do adolescente. Também ajuda pensar em como era o filho antes desta fase e no que se alterou desde então, sem esperar necessariamente manifestações muito intensas para reconhecer que alguma coisa pode não estar bem.
Quando procurar ajuda
Nem sempre é fácil fazer esta leitura sozinho. Quando surgem dúvidas persistentes, quando o mal-estar parece prolongar-se ou quando os sinais começam a interferir com o bem-estar da criança ou do adolescente, pode ser importante procurar apoio.
O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender melhor aquilo que está a ser vivido, a distinguir reações esperadas de sinais que merecem maior atenção e a criar um espaço onde a criança ou o adolescente possa organizar emocionalmente esta fase. Também pode ajudar os adultos a perceber melhor o impacto das mudanças e a encontrar formas mais seguras de apoiar os filhos.
Consoante a idade e a situação, o apoio pode passar pela Psicologia Infantil, pela Psicologia do Adolescente ou, em algumas situações, por Acompanhamento Parental, quando também é importante ajudar os pais a compreender melhor o que estão a observar e como podem responder de forma mais protetora.
Para uma visão mais alargada sobre este tema, pode também ler a página de divórcio e conflito parental.
Nem sempre os filhos dizem claramente que estão em sofrimento. Muitas vezes, mostram-no de formas mais discretas, que exigem tempo, atenção e sensibilidade por parte dos adultos. Quando esses sinais persistem, procurar ajuda pode ser um passo importante para compreender melhor o que se está a passar e apoiar a criança ou o adolescente com maior segurança.

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